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O GALINHO: JORNALISTA MARCOS CALAÇA
 


A MERCEARIA DE SEU MACIEL

Marcos Calaça, jornalista (UFRN)

Esse comércio era considerado um dos maiores estabelecimentos comerciais da cidade. Quem conheceu essa mercearia sabe que existia uma grande diversificação de mercadoria. A variedade era tamanha que, muitas vezes, uma pessoa dizia para outra: “o que você  está procurando, só encontra na mercearia de seu Maciel”. Muitos produtos e objetos se espalhavam pelo balcão, pelas prateleiras,  pelo teto e até no piso.

Lembro-me de algumas mercadorias que formavam o estoque, uma verdadeira miscelânea, mas era o local que muitos pedro-avelinenses encontravam  o que queriam, sem se deslocar a Natal. Exemplos: pá; enxada; facão; canivete; sandália; dobradiça; prego; martelo; alicate; parafuso; fechadura; copo de alumínio; corda; candeeiro; lamparina; querosene a retalho, que o matuto chamava de gás.

A mercearia também era sortida do grosso, como chamamos. Cada saco tinha a boca arregaçada de feijão, farinha, arroz e açúcar. A medida era a cuia. O café podia ser em pó ou em caroço. Depois  esses produtos passaram a ser  no peso, na balança Filizolla. Outros produtos que eram vendidos na mercearia:  anilina; pólvora; espoleta; chumbo; prato; copo; talheres; xícaras; confeito; fumo em pacote; papel de cigarro; fósforo; vela; sabão em barra.

Seu Maciel tinha produtos como se fosse um verdadeiro armarinho: Gilette; sabonetes Gessy,  Lux e Palmolive; zíper; linha; agulha; botão; talcos Gessy e Granado; desodorante Mistral; leite de rosas; creme de barbear Bozzano; brilhantina Glostora; esmalte; acetona; óleo de ovo; água de colônia; marrafa; pente; espelho de bolso; diadema; chupeta; elástico; dedal.

Nesse comércio também podia encontrar material escolar: caderno de arame fino; lápis de pau; máquina para fazer a ponta do lápis; borracha; papel almaço, para fazer o cabeçalho para a prova no Grupo Abel Furtado. Além de comida para passarinho, como alpista e painço. E muitos outros produtos e objetos que eu não lembro.

De maneira que, seu Maciel e dona Sofia formaram um casal perfeito e educaram todos os seus filhos através dessa mercearia inusitada, para a época. Hoje, os filhos são exemplos dignos, alguns são funcionários públicos e, outros, profissionais liberais.



Escrito por MARCOS CALAÇA às 23h55
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MARCAS DO TEMPO

Marcos Calaça, jornalista (UFRN)

Para aqueles que já contam com meio século de vida, são os privilegiados dessa bela crônica que estou escrevendo. Os que tem menos de cinquenta anos, certamente, terão que pedir ajuda aos mais velhos.

O certo é que estamos vivendo uma revolução tecnológica e uma mudança radical na cultura , essa para pior. Alguns objetos mudaram de nome com outros costumes e hábitos, como: diadema mudou para tiara; baladeira colocaram o apelido de estilingue;  a brincadeira de academia passou a se chamar de amarelinha; maria chiquinha abortou para xuxa.

Outros objetos viraram peça de museu, como exemplos: radiola, máquina de datilografia, vídeo cassete, toca fita do meu carro, gravador de pilha, suspensório, tabuada, cartilha do ABC, broche, brilhantina e outros produtos perdidos no tempo e no espaço.

Algumas marcas viraram figuras de linguagem, como toda lâmina de barbear é Gillette;  a água sanitária chamam por Água Marilena; o iogurte gritam por Danone; a esponja de aço pedem por Bombril. Existem roupas que marcaram para sempre na década de 70: camisas Fio Escócia e Volta ao Mundo; calças Lee e US Top; calças de veludo e boca de sino; tênis conga, Kichute e Verlon; refrigerante Guaraná Antarctica para quem estava doente; o mesmo com biscoito Maria, só quando adoecia; sabonetes Phebo e Vale Quanto Pesa. A pelada era bola canarinho; para ficar forte a jogada passava por Biotônico Fontoura e Emulsão Scott. Sapato, a febre era Cavalo de Aço.

Em um certo momento a juventude inventou a moda de alpargatas de couro. O café era Vencedor, gostoso com a tapioca de Geni de Chico Locutor. Teve o momento febril da revista Placar e das figurinhas dos campeonatos brasileiro e carioca, com a rivalidade entre Flamengo de Zico e Vasco de Dinamite. Quando o calor apertava, era o momento de poli e dindim.

A televisão era em preto e branco, como as marcas Colorado RQ e ABC a voz de ouro. Dominava o cenário a TV Tupi, com Tarzan; Daniel Bonne;  A feiticeira; Viagem ao Fundo do Mar; Perdidos no Espaço; Jerônimo, o herói do Sertão; Chacrinha; Flávio Cavalcanti e outros belos filmes, além das ótimas novelas.

E você participou dessa época lúdica? Maravilha.



Escrito por MARCOS CALAÇA às 23h49
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AS QUATRO BOCAS

Marcos Calaça, jornalista (UFRN)

Aqui passaram boas lembranças:

A mercearia de João Riacho, na esquina,

Os primeiros lanches na lanchonete de Assis Bezerra,

As cocadas da lanchonete de Antônia Braulino,

O bar arrochado de Ramiro,

Jogos de bilhar e sinuca no prédio de Antônio Rufino,

As primeiras caebas,

O bar de Fuíba e as conversas fiadas,

A vida alheia nas esquinas,

O comércio de Dedinho com frutas e cachaça,

Os discursos políticos,

As discussões após um Flamengo e Vasco,

O local apertado de trabalho de Zezinho Sapateiro,

Jogos de cartas e de bicho no armazém de Mimim,

A bodega de Luís Cadó,

A farmácia de Zelito Calaça,

O boteco de dona Chicula,

A ‘ceasa’ de Zé Pereira,

A barbearia de Antônio Tomaz,

As preliminares para as festas no Country  Club.

Na década de 70, a lousa da sinuca indicava a palavra SAUDADE.

Ruas e becos que se unem para formar as quatro bocas,

E terminam na solidão que o tempo deixa para sempre.

Ah!, se uma dessas bocas falasse!

 

CAMPO DO FLAMENGO

Marcos Calaça, jornalista (UFRN) 

Ano 1974, torneio patrocinado pela AUPA (Associação Universitária de Pedro Avelino).

Ao redor, o silêncio e a tranquilidade das carnaúbas.

O fanatismo entre Flamengo e Vasco tomava conta da cidade pela manhã de domingo. À tarde, o jogo deixava o nervosismo no campo lotado. Na geral, o desconforto. Todos em pé, sem cerca, só a marca da cal que dividia e afastava os torcedores.

Gol. Palmas, alegria, gritos, euforia, confusão. O mundo esportivo Pedro-avelinense  dividia as duas torcidas pela metade e fervia de emoção para o vencedor. Quanto ao perdedor, a mãe do juiz era culpada pela derrota, além da tristeza e do sofrimento.

 

O BANHO DE AÇUDE E O CAMINHO DE VOLTA

Marcos Calaça, jornalista (UFRN)

Na década de 70 era comum no final de semana a juventude tomar banho de açude na zona rural.

Certo dia, na manhã de domingo, João Rufino, Nenen de Solon e Paulo de João Tomaz fretaram a rural de Doutor, tendo como motorista GB4, com destino à fazenda de Chico Félix para tomar banho no açude. Chegando ao local, começaram a tomar umas caebas seguras. A turma exigiu que GB4 aguardasse até o fim da farra. O motorista não esperou e foi embora. Antes, Nenen alertou: ‘amigos não façam nada com a rural, pois a mesma é do meu primo’.

Fim de farra e bêbados, decidiram voltar a pé para a cidade. Cansados e revoltados, chegando em frente ao quartel, um deles jogou um paralelepípedo na porta da delegacia que quebrou. Todos correram. Nenen correu para casa, já os outros dois amigos se esconderam numa das bueiras da balaustrada. Os soldados saíram procurando o autor da presepada. Um gaiato ia passando na hora e disse: ’foi Toinho Rufino que jogou a pedra’.

O delegado se dirigiu à casa de Antônio Rufino (pai) e conversou: ‘seu Antônio, estou comparecendo aqui porque seu filho Toinho quebrou a porta do quartel com uma pedra’. O pai chamou o filho e pegue peia. Na realidade, Toinho não participou da brincadeira. Fica a pergunta: Quem jogou a pedra?

 

AÇUDE DE ODILON

Marcos Calaça, jornalista (UFRN)

No início esse açude foi construído com a finalidade de amenizar a falta d’água na cidade devido  às grandes secas. Logo, o açude serviu para abastecer algumas residências e para lavagem de roupa no próprio local.

Depois, o velho açude permaneceu sem nenhuma utilidade, por isso, os jovens passaram a utilizar como local de lazer nos finais de  semana.

Corre o ano de 1975. As águas em volta de algumas carnaúbas e outras árvores estão infestadas de piabas.  Os meninos estão tomando banho e esperando que os peixinhos  entrem  na armadilha de uma lata com farinha.

Eu estou tomando banho com alguns moleques e papai não sabe. Está na hora de sair do açude, enxugar-me  e ir embora para casa.

Assim termina o único banho e último mergulho na loucura da saudade desse açude.

 

ARRA  DIABO

Marcos Calaça, jornalista (UFRN)

Aquela velhinha era muito religiosa e frequentava a missa todos os domingos, pela manhã, celebrada pelo padre Antas.

Vivia solitária e, ao sair da igreja após a missa, caminhando vagarosamente por algumas ruas era insultada pela meninada que gritava pelo seu apelido: ’Arra Diabo?’. A pobre coitada jogava pedra  e dizia nome pornográfico com as mães dos garotos: ’É a puta que pariu’.

Qual o seu nome verdadeiro? Quem era a sua família? Pobre velhinha. Amém.



Escrito por MARCOS CALAÇA às 11h28
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TEREZA CRISTINA, FILHA CAÇULA DE JOAQUIM AMÁZIO, ELOGIA BLOG CULTURAL DO GALINHO

Caros conterrâneos Marcos e Bosco, sou Tereza Cristina da Costa, filha caçula de Joaquim Amázio e Geralda, ainda nascida em PA (Pedro Avelino) e onde vivi até os 8 anos. Passando as minhas férias aqui em Belém, conversando com Dedé (Zé gordo) e Chiquito, eles me falaram do Blog de vocês, logo acessei, e encontrei essa belíssima homenagem que vocês fizeram ao meu PAI, JOAQUIM AMÁZIO e Minha Familia.

Me emocionei muito pois estava lendo ao lado dos meus filhos e minha filha mais velha (15 anos) e disse: Olha a história de  vovô que a mamãe sempre conta para nós. Realmente foi lindo e emocionante ler a história dos meus pais e da minha família, muito, muito obrigada por me proporcionar tamanha emoção. Agora o blog do galinho está nos meus favoritos.Um abraço saudoso, Tereza Cristina da Costa.
Tereza Cristina | tereza.cristina.costa@hotmail.com | 



Escrito por MARCOS CALAÇA às 10h30
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PARA TEREZA CRISTINA, IRMÃ CAÇULA DO NOSSO POETA MAIOR: IBANI COSTA

ZILÁ ANTAS SE EMOCINA COM POESIA DO AMIGO IBANI COSTA E ELOGIA  BLOG CULTURAL

Fiquei muito emocionada ao ver a poesia do meu amigo Ibani Costa. Lembro delo com muito carinho, pois fomos bons amigos. Parabéns por lembrar de pessoas tão importantes de nossa cidade Pedro Avelino.

Abraços, Zilá Antas.

Resposta: Querida Zilá, obrigado por acessar o nosso humilde blog. Eu e o professor Bosco estamos resgatando, aos poucos, a cultura de uma Pedro Avelino de outrora, cujo objetivo é repassar para essa nova geração o quanto o nosso município era lindo e importante em todos os aspectos, como culturais, sociais, econômicos e políticos. Para você algumas poesias do nosso poeta maior: IBANI COSTA.
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POETA IBANI COSTA

HOMENAGEM AO PADRE ANTAS

Eu sou a pedra que virou rochedo 

Eu sou o medo transformado em festa,

Eu sou a fresta que guardou o credo

Arvoredo de Deus, no céu floresta 

Manifesta-se em mim, desde bem cedo

Sacro triângulo de infinita aresta.



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O poeta Ibani Costa fez essa linda homenagem a Chico Câmara, em 1976.

O FOLHETO DO BARÃO

Vou pedir a proteção,

Aos Deuses da poesia,

Para descrever em versos,

Por caminhos adversos,

Tudo quanto ali porfia,

Que o nosso povo vem tendo,

O pão do diabo comendo,

Sem ter consolo nem guia.

 

Já tivemos muitas secas,

Muita gente já faliu,

Já perdeu propriedade,

Ficou velho antes da idade,

Mas seu Chico não caiu,

Olhando firme o seu rumo,

Faz seu cigarro de fumo,

Já é tarde já cuspiu.





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O PESCADOR

IBANI COSTA

Soprava o vento as palhas de um coqueiro

Saudando alegre um barco que partir,

Levando um forte homem que queria,

Buscar no mar o pão p'ro lar inteiro.

 

Na concha azul a ave que voava,

Deixou cair um beijo com doçura,

Abençoando aquela criatura,

Buscando longe o pão que lhe faltava.

 

E em mágicos deslizes o bailado,

Da onda mansa carregava um bravo,

Que se tornou do mar fiel escravo,

Devido ao seu amor ao lar sagrado.

 

Uma criança frágil de seis anos,

Com a magra mão acenos lhe enviava,

E ao coração baixinho murmurava:

"Volte logo, papai, nós esperamos".

 

Nem do lugar mais alto de um monte

Se via mais o homem do barquinho,

Pois não passava de um banal pontinho,

Perdido no infinito do horizonte.

 

Passaram-se três dias de repente,

Um ponto vem crescento já de volta,

A vela do barquinho ao vento solta,

Tornou-se rubra como no poente.

 

A mãe e o filho a sorrir correram,

Para abraçar o homem que voltava,

Sem reparar que o mar triste chorava,

E o coqueiral dorido emudecera.

 

O frio vento que parou com as horas,

Sussurrou algo, e aquela que corria,

Caiu por terra, e o filho lhe dizia:

Por que choras mãezinha, por que choras?

 

Seu pai, meu filho, partiu num barquinho,

Já fez três dias eu o esperava,

Para ele todo dia eu rezava,

E o barco triste encostou sozinho.

 

Ibani Costa (1957-1977). Nasceu em Pedro Avelino-RN,

ganhou o festival popular de música em Belém do Pará

em 1974. Faleceu muito jovem tragicamente em Natal.



Escrito por MARCOS CALAÇA  



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.MLPA: MOVIMENTO PARA A LIBERTAÇÃO DE PEDRO AVELINO. Ano: 1976.

Hino do poeta Ibani Costa.

HINO DO MOVIMENTO

Eme ele pe a

Juventude pra lá

De leal e de amiga

E de grande valor.

II

Eme ele pe a

Não podia deixar

De aqui reunir

Todo seu pessoal.

III

Simbora, meu caro estudante

Há um movimento te chamando ali.

A turma arregassou as mangas

E partiu pra luta pra não desistir.

IV

Me traga um poeta por favor

Eu quero lhe falar coisas de amor,

Eu quero é ver o sol brilhando

Em minha vida com amor e paz.

V

Mas agora guarde o resto das esmolas

Se ajeite e vá embora

E dê a quem necesssitar.



Escrito por MARCOS CALAÇA às 10h26
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CANTE LÁ, QUE EU CANTO CÁPatativa do Assaré

Poeta, cantô de rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo
Aqui Deus me insinou tudo,
Sem de livro precisá,
Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá.

Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisas do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só o que provou da comida
Sabe o gôsto que ela tem.

Pra gente cantá o sertão,
Precisa nele morá.
Tê armoço de fejão
E a janta de mucunzá,
Vivê pobre sem dinhêro,
Trabaiando o dia intêro,
Socado dentro do mato,
De apragata curulepe,
Pisando inriba do estrepe,
Brocando a unha-de-gato.

Você é muito ditoso,
Sabe lê, sabe escrevê,
Pois vá cantando o seu góso,
Que eu canto o meu padecê.
Inquanto a felicidade
Você canta na cidade,
Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
Pra sê poeta divera,
Precisa tê sofrimento.

Sua rima, inda que seja
Bordada de prata e ôro,
Par a gente sertaneja
é perdido êste tesôro.
Com o seu verso bem feito,
Não canta o sertão dereito,
Porque você não conhece
Nossa vida aperreada.
E a dô só é bem cantada,
Cantada por quem padece.

Só canta o sertão dereito,
Com tudo quanto èle tem,
Quem sempre correu estreito,
Sem proteção de ninguém,
Coberto de precisão
Suportando a privação
Com paciença de Jó,
Puxando o cabo da inxada,
Na quebrada e na chapada,
Moiadinho do suó.

Amigo, náo tenha quêxa,
Veja que eu tenho razão
Em lhe dizê que não mêxa
Nas coisas do meu sertão.
Pois, se não sabe o colega
De quá manêra se pega
Num ferro pra trabaiá,
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá.

Repare que a minha vida
é deferente da sua.
A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão,
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obras da criação.

Mas porém, eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livros do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta,
E fazê rima compreta,
Não precisa professô.
Basta vê, no mês de maio,
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô.

Seu verso é uma mistura,
é um tá sarapaté,
Que, quem tem pôca leitura,
Lê, mas não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistero e condão
E ôtros negoço impossive,
E eu canto as coisas visive
Do meu querido sertão.

Canto as fulô e os abroio
Com tôdas coisa daqui:
Pra tôda parte que eu óio
Vejo um verso se bulí.
Se às vez andando nos vale
Atraz de curá meus male
Quero repará pra serra,
Assim que eu óio pra cima,
Vejo um diluve de rima
Caindo inriba da terra.

Mas, tudo é rima rastêra
De fruita de jatobá,
De fôia de gamelêra
E fulô de trapiá,
De canto de passarinho
E da poêra do caminho,
Quando a ventania vem,
Pois você já tá ciente:
Nossa vida é deferente
E o nosso verso também.

Repare que deferença
Isiste na vida nossa:
Inquanto eu tô na sentença,
Trabaiando em minha roça,
Você, lá no seu descanso,
Fuma o seu cigarro manso,
Bem prefumado e sadio,
Já eu, aqui, teve a sorte
De fumá cigarro forte
Feito de paia de mio.

Você, vaidoso e facêro,
Tôda vez que qué fumá,
Tira do bôrso um insquêro
Do mais bonito metá.
E eu, que não posso com isso,
Puxo por meu artifiço
Arranjado por aqui,
Feito de chifre de gado,
Cheio de argodão queimado,
Boa pedra e bom fuzi.

Sua vida é divirtida
E a minha é grande pená.
Só numa parte da vida
Nós dois samo bem iguá:
é no direito sagrado,
Por Jesus abençoado
Pra consolá nosso pranto,
Conheço e não me confundo,
Da coisa mió do mundo
Nós goza do mesmo tanto.

Eu não posso lhe invejá
Nem você inveja eu.
O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Por minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, bêja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.

Aqui findo esta verdade
Tôda cheia de razão.
Fique na sua cidade,
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um espêio.
Já lhe dei grande consêio
Que você deve tomá:
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mêxo aí.
Cante lá, que eu canto cá.



Escrito por MARCOS CALAÇA às 09h26
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TV BRASILEIRA: ISSO É 'CURTURA'

 



Escrito por MARCOS CALAÇA às 09h10
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CAUSOS E PROSAS

PUBLICADO NO 'O JORNAL DE HOJE' NO DIA 17/04/99

Severino dos Ramos Marcélio, na sua adolescência, era tão magro  que ganhou o apelido de 'Fosco' (fósofro). Sempre aos domingos, Marcélio gostava de caçar na fazenda Alagamar, no terreno do seu tio Zé Câmara. Este gostava de uma 'caeba'. Era comum 'Fosco' levar uma garrafa de cachaça para tomar umas cipuadas com a caça que mataria.

Certo dia, Marcélio deixou a cachaça no pé do pote e se mandou para o mato com a espingarda para caçar. Chegando à tardinha, na casa do tio Zé, 'Fosco'  foi direto ao pé do pote tomar uma. Resultado: a garrafa estava seca e Zé Câmara bêbado, dormindo na rede; mas Marcélio o acordou: "Acorda tio Zé, quem tomou a minha cachaça?". E Zé Câmara respondeu: "Meu querido sobrinho, só não fui eu. Eu tava vigiando a garrafa porque lhe quero muito bem".

Marcélio chegou lá para uma hora da madrugada no boteco de Severino Geraldo, conhecido como Pitoroco, e disse-lhe:"Severino, encontrei a sua filha namorando uma hora dessa numa praça da cidade". Pitoroco endoideceu e foi procurar a filha em todas as praças da cidade, inclusive na praça do bairro São Francisco, distante do centro. Na realidade, a moça estava na festa de colação de grau da turma concluinte do ginásio. Pela manhã, Severino foi à forra com 'Fosco', briga feia.

'Fosco' tem um irmão conhecido como Júnior, que sempre é porteiro ou bilheteiro nas festas da cidade. Júnior é duro na queda e não deixa ninguém entrar nos eventos gratuitamente. Marcélio era estudante e não trabalhava. Chegou na hora da festa no Country Club e pediu:"Júnior, meu mano, eu vou entrar". Júnior retrucou:"Vá em casa, peça dinheiro a papai e compre o ingresso. Assim, meu irmão, você entra".

Severino Marcélio é amigo de infância de João Lento, um homem calmo, com voz macia, como o próprio nome diz, mas não tem nada de besta. Lento é filho de Mestre Joca, e chegou num dia de festa no Country club, sem dinheiro, e fez a seguinte proposta:"Marcélio, você é meu amigo do peito. Pule o muro do Club, por trás que é escuro, depois saia pela frente, me dê o ingresso e depois pule novamente para a gente se encontrar lá dentro". Marcélio, ainda mais sabido, devolveu:"João, boa idéia. Como você é meu amigo, vai fazer isso pra mim".

Marcélio é irmão de Chiquinho da Farmácia, conhecido como Chiquinho de Maroca, ambos são filhos de João Ferreira, Doca de Samuel. A avó materna de Fosco chamava-se Mãe Maroca. Certo dia, ela deu uma surra segura de palmatória em Marcélio. Este chegou em casa chorando e disse:"papai, Mãe Maroca deu em mim". Doca, com sua ignorância aprontou:"Essa pisa não valeu. Quem tem que dar em você sou eu, que sou seu ppai. E tem mais, acorda todo mundo para apanhar". E pegue peia de cipó de boi em todos os filhos. Detalhe: Quando um dos filhos errava, Doca batia em todos, inocentes ou não.

Marcélio terminou o curso ginasial em Pedro Avelino, no Ginásio Paulo VI, e se mandou para a capital para estudar o segundo grau no Anísio Teixeira. Liso pra danado , encontrou uma bolsa com dinheiro no colégio. Júnior Bezerra pediu o dinheiro, chamou alguns amigos e rachou o 'cacau'. A menor parte ficou para 'Fosco'. Como era o primeiro ano que estudava na capital, o matuto dançou.

Hoje, Marcélio é funcionário público e reside em Natal.

                       Marcos Calaça, Jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 11h47
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Espaço das Grandes Figuras

JOÃO ELÓI

    Quando o sertão dos Angicos era promissor, inúmeras  famílias seridoenses vieram povoar e desenvolver a agricultura  e a pecuária, trazendo todos os seus usos e costumes. Dentre outras famílias citaremos a do patriarca Elói Misael.

João, um dos seus filhos, corajoso, bonachão, com todas as qualidades do homem sertanejo descritas por Euclides da Cunha, no seu famoso livro Os Sertões.
Seu João com uma visão futurista, principalmente na agropecuária, foi um dos fundadores da promissora feira do povoado de Córregos na década de 60.
Pai de uma prole maravilhosa.Tive a felicidade de ter sido colega de turma de Finha e de ter sido professor dos seus irmãos, entre eles Iranilton, Neguinho e Nirinha.
Seu João, conforme eu o chamava, fez como o cajueiro do poeta Humberto de Campos, pois não saiu do lugar, ramificou e deu bons frutos. Não tive a ventura de ter conhecido a sua primeira esposa, mas lembro-me de dona Julita, a segunda, que era dos Batista Câmara, exímia cantora da Igreija, nossa catequista e mãe exemplar.
O casal não perdia uma reunião da escola que eu era diretor e professor, no caso, o Ginásio Paulo VI, e nunca deixou de cooperar com a mesma, visando o desenvolvimento intelectual dos seus filhos.
Como homem do campo educou todos os seus filhos, alguns profissionais liberais e outros funcionários públicos.

João Elói pertence a uma classe de gente que passa ficando.


Prof e Poeta João Bosco


Escrito por MARCOS CALAÇA às 21h15
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SENTIMENTAL DEMAIS

FÉRIAS NOSTÁLGICAS

Vivo a alegria e a nostalgia ao voltar aos meus dezoito anos. Esse passado telúrico dá prazer ao reconstruir no presente as coisas boas para a atual juventude. Eu sou um verdadeiro ator coadjuvante, o principal personagem é o tempo. Escrevo porque o pretérito é o meu presente e o meu futuro, por isso gosto de escrever, além de boas leituras. Às vezes quando visito o meu torrão, tento lembrar e reconstituir os fatos que vivi e presenciei.

Hoje falo sobre as férias do tempo de estudante. A turma estudava em Natal, o científico ou o segundo grau, e chegava de trem para as férias de dezembro e janeiro. Nessa bela viagem a galera jogava conversa fiada tomando cachaça dentro de coco verde para enganar o cobrador que marcava o bilhete através de catraca.

A lua cheia nas noites seresteiras, enquanto rapaz, ouvi muitas boemias tocadas e cantadas pelos amigos da turma dos Magnatas. No comando, Iranilton de João Elói, que tocava pela madrugada na minha casa por dois motivos: as minhas irmãs e bebida com tiragosto que papai colocava pela janela do quarto. As músicas eram variadas, de Nelson Gonçalves a Roberto Carlos.

O bar de Chiquinho Vaquejada e o boteco de 'Mané Quelé' eram os pontos principais dessa época, final da década de 70. Outro ponto nostálgico era o 'Boinho de João Coveiro', em frente ao quartel. Muitos jovens faziam a preliminar nesse local para as grandes festas do Club. Outro local importante dessa época foi o bar de Luís Cruz em frente à praça.

No Country Club, os velhos carnavais e as grandes festas contemplavam as paixões, a carne, a bebida e a alegria na fantasia das férias e da felicidade. Os jovens estudantes passavam o mês de janeiro ensaiando a batucada e organizando a alegoria para o desfile do domingo de carnaval em frente ao Club. a rivalidade que existia entre os blocos fazia parte do contexto momesco.

Boas lembranças, aos domingos, era o banho de açude com os amigos. Isso também acabou-se. À tarde, a boa pedida era o clássico entre Flamengo e Vasco, com grande rivalidade. Terminou o carnaval, de volta para Natal.

O que muito me magoa é a falta de mentalidade de muitos conterrâneos para uma boa produção cultural para resgatar os antigos costumes e as velhas tradições do nosso povo. Mas isso, através das minhas crônicas e poesias, estou fazendo e tentando tirar esse buraco negro da melancolia cultural que se encontra esse espaço elíptico, como se fosse um oito, sem saída. Por outro lado, o professor Bosco está resgatando a história das grandes figuras que fizeram algo pelo nosso torrão.

Os jovens não podem saber da nossa história e da nossa cultura se não existe o mínimo interesse das partes 'desinteressadas'. E se não fosse o meu blog? nostalgia pura.

"O passado não reconhece o seu lugar, está sempre presente": Mário Quintana, poeta e jornalista.

                                            Marcos calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 08h54
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O MEU NATAL DE ANTIGAMENTE

Nesse tempo que estamos nas festas natalinas, sinto que o Natal já não é o mesmo da nossa época. Tudo mudou, totalmente.

Confesso que fico triste, pois já não existe o espírito de Natal. A realidade é a sociedade de consumo em filas imensas nos shoppings e propagandas enganosas na televisão enganando os menos favorecidos nessa desigualdade capitalista.

As famílias não se unem mais para pensar no amor, na fraternidade, no caminho e na união entre as pessoas. Até mesmo a crença no Papai Noel, que antigamente 'existia',  e que as crianças sonhavam com o homem de barba, aquele velhinho que trazia o presente e que colocava embaixo da rede, já não existe mais. O Natal era fé e festa. Após a missa, a meninada ia para o pátio do mercado comprar guloseimas, como cestinhas com confeito de rapadura, castanha, amendoim, pipoca de milho alho; além de alfenim, puxa-puxa, gelé de coco, barba de papai noel e algo mais. Depois, a brincadeira era na frente da nossa casa.

Eu brigava contra o sono para ver a chegada do bom velhinho, mas nunca consegui ficar acordado até meia-noite. Sempre perdia quando Papai Noel passava pela minha casa e colocava no meu quarto um carrinho de madeira ou uma bola de plástico de nome canarinho. Lembro bem da minha alegria ao acordar, quando olhava ao lado da rede e estava o presente daquele homem de barba branca tão querido pelas crianças. Minhas irmãs recebiam bonecas de plástico ou de pano.

A lua bela brilhava a minha rua e as crianças esbanjavam alegria e felicidade nessa noite querida.

                                      Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 18h59
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CONTERRÂNEO ELOGIA  BLOG CULTURAL E LEMBRA O PADRE ANTAS

Nasci em Pedro Avelino em 1950 , hoje vivo no Rio de Janeiro . Conheci o Padre Antas, frequentei quando menino a casa paroquial para assistir desenhos animados educativos ... e cantei as músicas que pesquisei. Parabens pelo trabalho maravilhoso. Honorio.
Honorio Ferreira Neto 
| honoriofn@hotmail.com



Escrito por MARCOS CALAÇA às 13h40
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CAUSOS E PROSAS

PUBLICADO NO 'O JORNAL DE HOJE' NO DIA 22/02/1999

Francisco das Chagas Jerônimo, conhecido como Chiquinho de Maroca ou Chiquinho da Farmácia, sempre foi brincalhão e animado. Na adolescência, caminhava constantemente à fazenda Alagamar, de seu tio Paulo Câmara. Pelo caminho, cruzava sempre por algumas pessoas.

Certo dia, Chico encontrou Carlos Jorge, o Ganzola, que era fanho e tinha problemas de dicção:"Ô, ô, ô, ô, ôi, Chi, Chi, Chi, Chiquinho. Tu, tu, tu, tuuuudo bem?", saudou Carlos Jorge, mas Chico de Maroca já estava distante mais de cem metros. Hoje Ganzola é motorista de ônibus e melhorou da gagueira.

Chiquinho é balconista de uma farmácia e trabalhou vários anos em Macaíba. Um dia, chegou à farmácia uma cigana de nome Marlene, muito conhecida em Pedro Avelino, e pediu a mão de Chico para ler. Chiquinho já sabendo as artimanhas e o nomadismo dos ciganos, conhecendo muito bem esse comércio de quiromancia, disse " Deixe eu ler primeitro a sua mão". Prontamente foi atendido e a cigana estendeu-lhe a mão direita:"Você nunca roubou galinha, toma banho três vezes ao dia e troca de roupa constantemente", a cigana saiu jogando praga de todo tamanho, inclusive para a pobre mãe de Chico.

Pelos idos de 1975, Chiquinho chegou à lanchonete de Assis Bezerra e fez uma aposta com o amigo e estudante do Ginásio Paulo VI, Inácio Alexandre. Apostou como Inácio não seria capaz de dizer cinco palavras que começassem com a letra 'z'. Alexandre apostou e, de imediato, foi logo afirmando:Essa eu já ganhei: "zói, zunha, zuvido e zureia". Chico lembrou que faltava uma palavra, Inácio se dirigiu para o dono da lanchonete e pediu:"Assis me dê cinco zovinho", que na verdade eram cinco ovinhos de amendoim. Por ironia do destino, Inácio Alexandre formou-se em letras e é professor de português.

Nessa mesma lanchonete aparentando sete anos de idade, com uma tremenda gripe e o nariz 'escorrendo', Chiquinho perguntou ao garoto: "Menino, o que é isso?", e o garoto respondeu:"Você não sabe que é catarro, pra quê pergunta?".

Ainda na década de 70, eu e Chiquinho saímos à tardinha do Ginásio paulo VI e passamos, na volta, pelo Country Club para tirar limão. Do outro lado do limoeiro, um outro colega sacudiu uma banda de tijolo para acertar algumas frutas e acabou aceertando a minha cabeça. Do ferimento saiu muito sangue e papai perguntou o que tinha acontecido. Chiquinho tentou disfarçar nossa travessura dizendo que tinha sido a merendeira do colégio, mas meu pai soube da verdade e Chico quase apanhou. Papai tinha uma farmácia e levei cinco pontos na cabeça, sem anestesia. A partir desse dia nunca mais menti para o meu pai. Atualmente Chiquinho de Maroca é gerente de uma farmácia, na Zona Norte.

                                Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 22h46
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SAUDADE DE UM MATUTO LONGE DE SEU TORRÃO

Sertão torrado estou distante

Morando na capital

Faz tempo eu te deixei

Para estudar em Natal.

 

Abandonei meu velho torrão

Nunca vou  te esquecer

Cidade grande é gente chata

Me aposentando voltarei para você.

 

Tua roupa velho sertão

É um belo juazeiro

A minha brincadeira

Era galinha de pereiro.

 

Velha Serra Aguda

Habitada por gato do mato

Da caatinga de menino

De um sertanejo nato.

 

Seu oceano é o açude

Água sem poluição

As estradas são as trilhas

Muito andei por esse chão.

 

Sertão velho escrevo poesia

como forma de te homenagear,

Mais te servirei

No dia em que eu retornar.

                         Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 21h39
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SOU FILHO DA NATUREZA

Sou menino de grande fervor

Estudo num grupo e respeito o professor

Sou o violão e sua poesia

De Ibani Costa cheio de alegria

Sou a chuva que molha o sertão

Na reza do agricultor

Pronto para a plantação.

 

Sou o ânimo do sertanejo

Para nunca desistir

Tristeza no período da seca

Implora para não partir

Clama por Deus, abençoado

Chora mãe, pai e menino

O céu está ensolarado.

 

Sou o vento que

Sopra atrás da serra

Para aliviar o calor

Sou a caça que

Se esconde do caçador

Clamando na caatinga

Não me mate, por favor!

                       Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 21h27
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LÁ E LÔ

Eu passadiço

E você lombada eletrônica.

Eu tomo água de quartinha

E você gelágua.

Eu como galinha caipira

E você galeto.

Eu jogo no bicho

E você na mega sena.

Eu escuto rádio Am

E você celular Fm.

Eu como gelé de coco

E você sobremesa.

Eu durmo de rede

E você de cama.

Eu vou à bodega

E você ao shopping.

Eu como tapioca

E você pizza.

Eu estudei num grupo

E você numa escola.

No recreio eu comprava poli

E você picolé.

Eu uso chinelo

E você alpargata.

Eu como jabá

E você carne de charque.

Eu vou merendar

E você lanchar.

Eu estou molenga

E você depressivo.

Eu compro uma rifa

E você um bilhete.

Eu como milho assado

E você pipoca de micro-ondas.

Eu tomo banho de açude

E você de praia.

Eu pego o beco

E você vai embora.

                  Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 18h05
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CUMEDO

Tô cumedo de ir simbora

Mode os perigo de lá.

É buzina pra todo canto

Assalto tem de lascar.

O povo num dá bom dia,

Tenho medo de bala perdida e matar.

É mió a ispingarda de soca

Que caço pra me alimentar.

Num fique contente pra eu ir,

Que eu num deixo PA.

Ir mimbora eu vou 'breu'

Fica muié e menino meu.

                                 Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 17h43
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PEDRO AVELINO RN

O HOJE NO ONTEM

Hoje: carnaval na latada e festa na quadra.

Ontem: grandes festas e velhos carnavais no Country Club.

Hoje: água saneada.

Ontem: água da cacimba de São Pedro, 'doce e fria'.

Hoje: a cidade não tem hotel.

Ontem: Chico Travessa e Eneas.

Hoje: falta um bar para uma conversa fiada.

Ontem: a sede do Flamengo, Fuíba e 'Mané Quelé'.

Hoje: praça padre Antas.

Ontem: quadra do padre Antas.

Hoje: 'hospital'.

Ontem: maternidade.

Hoje: futebol, que futebol?

Ontem: hegemonia de Flamengo, Vasco e São Pedro.

Hoje: agricultura, que agricultura?

Ontem: feijão, milho e algodão.

Hoje: feira aos sábados, que feira?

Ontem: feira grande, até às cinco da tarde.

Hoje: mercadinho.

Ontem: bodega, barracão e mercearia.

Hoje: adoeceu ou quebrou o braço? Pedro Avelino-Natal, via Lajes.

Ontem: Zelito Calaça.

Hoje: brincadeira de criança é play satation, computador, orkut...

Ontem: bandeirinha, tica, capitão de tropa, nota de cigarro, baladeira, garrafão, galinha de pereiro...

Hoje: galeto assado.

Ontem: galinha caipira torrada.

Hoje: banho de choveiro.

Ontem: banho de cuia, uma delícia.

Hoje: bandas de forró enlatado e de plástico.

Ontem: forró pé-de-serra.

Hoje: refrigerante com bauru.

Ontem: pão doce com caldo de cana.

Hoje: para viajar, transporte particular.

Ontem: trem.

Hoje: facebook e blogs.

Ontem: correios, jornais e revistas.

Hoje: E.E.Paulo VI.

Ontem: Ginásio Paulo VI (municipal).

Hoje: cadeira de plástico.

Ontem: tamborete.

Hoje: suco.

Ontem: ponche.

Hoje: som pancadão.

Ontem: gravador no ombro.

Hoje: foto digital.

Ontem: tirar retrato é com Getúlio.

Hoje: E.E. Josefa Sampaio.

Ontem: campo da porcolândia.

Hoje: e a estação?

Ontem: Estação Ferroviária.

Hoje: Globo.

Ontem: TV Tupi.

Hoje: quadrilha estilizada.

Ontem: quadrilha matuta.

Hoje: aids.

Ontem: gonorréia ou blenorragia.

Hoje: torrada e cachorro quente.

Ontem: sopa e cuscuz.

Hoje: rodoviária, que rodoviária?

Ontem: pracinha do Club. Namoros, brincadeiras e preliminares para as grandes festas.

Hoje: rádio Fm tocando, tocando o quê?

Ontem: rádio Am tocando Luiz Gonzaga.

                       Marcos calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 09h00
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O ONTEM NO AMANHÃ

Você já leu a revista O Cruzeiro? Lembra da charge  Amigo da Onça? interpretação obrigatória.

Já andou de Sinca, Aero Willys, lambreta, TL, Dodge e Karmann guia? um barato, mora.

Juntou figurinhas da seleção brasileira da Copa do Mundo de 1970? um espetáculo.

Naquela época você possuiu bicicleta? era Monark ou Calói? presente raríssimo.

Você já ofereceu ou recebeu uma música do parque de diversão Santa Teresinha? o locutor dizia: 'Essa linda página musical vai para alguém eternamente apaixonado'. A música era de José Ribeiro ou Tina Charles, e pegue Marisa ou I love to love. Amor platônico.

A geladeira da sua casa era Gelomatic ou Frigidaire? gelava pra burro.

Já matou passarinho com baladeira? hoje é estilingue, piada.

Usou calça boca de sino ou sapato cavalo de aço? era a moda.

Se lembra que os cantores lançavam discos pela RCA Vítor, Continental, Odeon, Poligram ou Phillips? rivalidade.

O seu relógio era Roskof, Mido, Mirvaine, Citizen, Orient ou seiko? relógios da época.

Usou camisa volta ao mundo e calça de veludo? um charme.

Você usou um pequeno espelho no bolso da calça e um pente marca Flamengo? sucesso na fazenda São Pedro.

Início da década de 70, se lembra do avião das dez horas da noite? Relógio pontual, meninos dormir.

Teve uma máquina fotográfica Kodak? Uma paixão pelos retratos.

Você tem como lembrança uma foto de monóculo? Um barato.

Em um ferimento, já usou mertiolate, mercúrio cromo e azul violeta? arranhou, usou.

Para insetos já usou detefon e baygon? O certo era esterco de gado.

Já assistiu na antiga TV Tupi os seguintes filmes: O Vigilante Rodoviário, Bonanza, Rin Tin Tin, Zorro, Tarzan, Viagem ao Fundo do Mar, Perdidos no Espaço, Daniel Bone, A Feiticeira e outros? medo e vitória.

Você assistiu ou participou dos grandes espetáculos da AUPA (Associação Universitária de Pedro Avelino), principalmente, na primeira metade dos anos 70? grande programação.

                                                               Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 13h13
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ESPAÇO DAS GRANDES FIGURAS
LEMBRANDO JOSÉ GERVAZIO BEZERRA COSTA 


            Em 1959 terminávamos o 5º ano na escola paroquial onde Gervazio era o primeiro da fila da esquerda.  Baixinho, míope, mas um dos primeiros da turma, era um guerreiro e até pelo significado do seu nome, Gervazio quer dizer: “Aquele que luta com a lança.”. Veio estudar em Natal no colégio Marista, sempre galgando as melhores notas. Participava conosco das festas doas carnavais, das serestas, das vaquejadas e vezes sem conta, íamos até à mercearia do seu pai para trocarmos idéias durante as férias. Foi a primeira pessoa que eu ouvir falar da palavra mutirão, pois, tinha uma idéia de transformar aqueles casebres em casas de alvenaria.
            Tocava violão e num desses encontros de férias, cantou e nos ensinou a cantar esta música que estamos postando como uma lembrança de um amigo que tão cedo se foi:

Green Fields

Os cantores de Ébano

Lá, tão distante
Por trás do sol
Lá, bem distante
Onde o pôr-do-sol
Põe tons vermelhos
Na noite, como um véu
Onde aos meus olhos
A terra encontra o céu
Vivia outrora
O meu bem
Em Green Field

Green Field é o meu lar
Meu mundo enfim
Lá eu guardava
Alguém só para mim
Lá me esperava
À noite, o meu bem
Lá onde o sonho
Morava, enfim, também
Vivia outrora
O meu bem
Em Green Field

Eu não sabia que um dia ao regressar
Já não mais teria alguém a me esperar
E que o encanto, a paz e o calor
Se tornassem pranto, frio e amargor

E hoje de volta
Para o meu lar
Já não encontro
Alguém a me esperar
Tudo é tão triste
E a fria solidão
Em tudo existe
E envolve a mim também
Como é tão triste
Meu Green Field
Sem meu bem.
                       João Bosco da Silva, professor e poeta


Escrito por MARCOS CALAÇA às 19h01
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OS ANTIGOS CIRCOS III

Dos antigos circos que passaram em Pedro Avelino, um marcou a minha infância, o Circo Mágico Nelson, o outro, marcou a adolescência, o African Circus.

CIRCO MÁGICO NELSON

No início da década de 70, o senhor Nelson ao chegar em Pedro Avelino, pelas informações, foi procurar Zelito Calaça para instalar o circo. Por outro lado, a farmácia de Calaça, devido ao grande movimento de pessoas, era um ótimo lugar para fazer a propaganda em cartazes do circo. Esse circo, para a época, era muito avançado e tinha de tudo, como trapezistas, palhaços, baianas e o show principal que eram as mágicas do senhor Nelson. Este frequentava duas casas no nosso município, a de Zelito Calaça e a de José Antas.

A parte circense mais importante era a ilusão de ótica, um verdadeiro olhar atento ao ilusionismo, um espetáculo. A segunda parte do circo era composta por uma peça teatral e fazia com que o público ficasse atento para saber o suspense do fim do drama. Na década de 70 esse circo passou por grandes dificuldades pois pegou fogo em Maceió, Alagoas. Esse circo esteve pela última vez no nosso município em 1990, o dono já falecido. Outro detalhe é que a primeira vez que esse circo se apresentou, um dos palhaços era Facilita, que se casou com uma das filhas do velho Nelson.

AFRICAN CIRCUS

No final da década de 70, o African Circus apareceu no nosso torrão como um circo completo com trapezistas, palhaços, baianas, dançarinas e a grande atração do circo, a adolescente contorcionista Marilac. Essa jovem era bonita e chamava a atenção do público masculino. Ela também se apresentava em cima de um arame como equilibrista. Os adolescentes vibravam como se fosse para ela cair nos braços dessa juventeude num efêmero momento de amor platônico. A segunda parte desse circo era uma apresentação teatral.

Ah! circos da minha vida, dos lugares longínquos onde andares, sinto aquela saudade enorme fantasiada dentro de mim e isso aumenta à medida que o tempo passa.

                                    Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 15h32
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OS ANTIGOS CIRCOS II

Velhas saudades dos antigos circos que passaram presentes pela minha infância e juventude . Quantas recordações!... Tenho lembranças que a chegada do circo na minha cidade era um acontecimento festivo. Não imaginava nem de longe que aqueles anos seriam tão efêmeros. Uma pena que naquele tempo a sensação de eternidade fez com que não aproveitássemos com mais intensidade aquele nosso cotidiano de absoluta felicidade juvenil. Só agora é que nos damos conta da imensa exiguidade daqueles anos. Saudade, saudade da alegria inconfundível dos velhos palhaços. Um deus buscando encontrar sorrisos nos semblantes das agruras sertanejas. Um ser que estava muito além da compreensão humana.  Não é mágica, diziam os espectadores. Isso não passa de magnetismo. E nós, pouco queríamos saber de onde estava tal verdade.

O circo nos era tudo. Dinheiro, cédulas novinhas pegavam fogo e viravam cinza para em seguida, bem ali na nossa frente novamente a mesma cédula ser reconstituída. Canecas derramavam água e moedas até cansar as nossas vistas. Homens engoliam tochas de fogo, engoliam pregos enorme, andavam sobre brasa, em pernas de pau e em bicicletas de uma roda só. Tudo era incrível. Um constante desafio a tudo aquilo que chamávamos de impossível. Animais adestrados(coitados) também faziam sua cota de sensacionalismo. Mas os artistas de fato eram quem faziam a diferença. As baianas lindas e maravilhosas requebravam seus quadris sob o tablado e até lançavam seus olhares maliciosos, assim como seus lenços vermelhos e perfumados sobre os ombros dos adultos, para receber algum trocado. De dia olhávamos os bichos, os macacos principalmente.... de noite, sorríamos com os palhaços, suspirávamos com os saltos rasantes dos trapezistas. E de quebra enamorávamos, confidenciando para nós mesmos, as dançarinas.

O circo era para todos nós o mundo que desejamos construir segundo as nossas utopias mais ingênuas e desafiadoras. O éden das nossas ilusões mais fantásticas e paradisíacas. A TV dos tempos modernos  Só não sabíamos que um dia, toda aquela fantasia pudesse ter um fim tão triste e melancólico como constatamos agora, soterrado pela televisão e por uma tecnologia descompromissada com a arte e a cultura; como se estivesse tirando a verdadeira identidade de um povo. O circo da alegria, hoje se transformara num círculo de tristeza, sobretudo quando sei que jamais poderei mostrar e, tampouco dividir com os meus filhos, toda a maravilhosa e singular experiência contidas nas velhas matinês dos espetáculos das tardes de domingos. O circo agora é um imenso baú onde guardamos para sempre nossas recordações mais felizes e inesquecíveis.

Era um acontecimento social dos mais importantes das nossas cidades interioranas, vivendo monotonamente o seu cotidiano de calmaria. O palhaço gritava pelas ruas junto com a meninada para mais um espetáculo, era o máximo: - 'Pompeu, pompeu tua mãe morreu/ e a cabeça do palhaço o urubu comeu'... 'Pipoca amedoim torrado/Carreguei tua mãe num carrinho quebrado'. 'Eu vou ali e volto já/Vou comer maracujá/Ela tem, mas eu não digo/ Carrapato no umbigo.... E arrocha negrada! Mais um pouquinhooo... Mais um bucadinhoooo... iêaaaaa...' - 'Hoje tem espetáculo! tem sim senhor às 8 horas da noite! Tem sim senhor...' A garganta da gurizada era o carro-de-som dos dias atuais e os amplificadores da daquela boa-nova para a nossa comunidade. Poucas palavras, sem nenhum ranço de apelação obscena ou duplo sentido que atentasse para a ética, moralidade e os bons costumes como diziam. Tempos idos que ainda hoje tanto ainda mexem com os nossos sentimentos e nossas reminiscências mais singelas e verdadeiras...

 



Escrito por MARCOS CALAÇA às 13h01
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OS ANTIGOS CIRCOS I
Um dos grandes divertimentos dos meninos de Pedro Avelino, nas décadas de 1960 e 1970, era quando um circo chegava à cidade. A grande maioria era muito pobre com a empanada bastante remendada e que sequer tinha uma lona para cobrir o teto, que de certa forma se tornava agradável por permitir a circulação da brisa noturna diminuindo o calor para o público. Dificilmente surgiam circos portando a cobertura superior de lona colorida.
A programação do circo também era de uma simplicidade a toda prova, pois limitava-se a números de palhaços contando piadas no picadeiro, algum trapezista fazendo exibições de balanços e para terminar  uma dançarina se apresentava em trajes de banho requebrando ao som de uma rumba ou um cha-cha-cha. As pessoas que trabalhavam no circo geralmente pertenciam à mesma família e descendiam de um velho circense que sempre ganhara o pão de cada dia deslocando-se de cidade em cidade do interior fazendo exibições que duravam no mínimo quinze dias.
Chegavam em dois caminhões velhos e os artistas, em caminhonetas e rurais também velhas. De imediato, davam uma circulada pela cidade para divulgar a chegada. Após conseguirem o espaço e a licença da prefeitura para instalarem o equipamento e em pouco mais de 2 dias estava o circo pronto para ser armado no local que melhor servisse aos interesses dos circenses. O trabalho de armar se limitava a construir uma cerca circular de arame farpado e dentro dela, também em forma circular estendia-se a lona lateral. Por dentro da lona lateral construíam-se as arquibancadas formadas por tábuas de madeira apoiadas em estrutura de ferro. Essa arquibancada que a gente chamava de 'galinheiro' ou 'puleiro'. Na parte próxima ao picadeiro ficavam algumas cadeiras de péssima qualidade, sendo o ingresso mais caro.
Apesar da pobreza e da repetição dos mesmos números a cada noite, a vontade que gente tinha era de estar sentado no 'puleiro', ouvindo as mesmas piadas do palhaço e dando gostosas risadas como se as estivéssemos ouvindo pela primeira vez. Éramos ingênuos, sem muita exigência e qualquer diversão por mais simples que fossem nos trazia muitas alegrias.
A maioria das crianças era pobre, por isso, a única maneira que a meninada tinha para assistir ao circo, era sair gritando atrás do palhaço pelas ruas da cidade, à tarde
Como isso funcionava?
Todos os circos, anunciavam o espetáculo da noite, através de um palhaço equilibrado sobre grandes pernas de pau, algumas vezes o palhaço usava um megafone acompanhado de um grupo de meninos, que lhe servia de coro e apoio.
O interessante disso tudo era que na divulgação do espetáculo noturno, o palhaço de cima das suas longas pernas de pau usava uma cantoria em plena rua, equilibrando-se nas longas pernas de pau e cercado pela meninada, entoava a seguinte cantoria cuja cadência e sequência era a mesma para todos:
O palhaço perguntava:

- “hoje tem espetáculo ?”
E, a meninada em coro respondia:
- “tem sim sinhô”
- “às oito horas da noite?”
- “tem sim sinhô”.
- “hoje tem palhaçada” .
- “tem sim sinhô”.
- “Hoje tem marmelada?”
- “tem sim sinhô.”
- “arrocha negrada”
E, nessa hora toda a meninada se matava de gritar.
- “E o palhaço o que é ?”
-“é ladrão de mulher”

“Arrocha negrada”.
E assim o palhaço continuava a percorrer as ruas da cidade, sem um prévio roteiro até que o sol começasse a se por e a penumbra tornasse arriscado o passeio com as longas pernas de pau. Nessa hora o palhaço retornava ao circo, e cada menino do “coro”, recebia um carimbo de tinta na parte de dentro do antebraço, para que pudesse ter acesso ao espetáculo daquele dia. Era a entrada gratuita por ter ajudado o palhaço na divulgação do circo. O detalhe é que a meninada não podia tomar banho
E aí era que estava a complicação. Minha Mãe não permitia de forma alguma que eu acompanhasse a meninada e o palhaço.


Escrito por MARCOS CALAÇA às 19h34
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PROFESSOR VANDO ELOGIA BLOG E LEMBRA JOGADORES DE MACAU

Meu caro, Marcos Calaça, sou de Macau, licenciado em Letras pela UFRN-CRESM, fico muito feliz pelo saudoso relato a respeito dos antigos futebolistas da Terra das Salinas, tais como, "Toreite", Arigó, e outros. Lembras de Tuca? Um abraço e parabéns pelo seu blog.
Professor Vando | vandelucio_sme@hotmail.com 

COMENTÁRIO:

Caro amigo Vando, estudamos na mesma época em Macau. Depois de muitos anos nos encontramos virtualmente. É um prazer tê-lo como leitor desse humilde blog cultural. Um grande abraço, Marcos Calaça.



Escrito por MARCOS CALAÇA às 15h00
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TOREITE

ZAGUEIRO SÍMBOLO DE RAÇA

No ano de 1971 a seleção de Pedro Avelino participou do maior campeonato amador do Rio Grande do Norte, o Matutão. O técnico  foi o grande José Djalma. Entre vários jogadores contratados, o destaque foi o zagueiro João Bosco, natural de Macau. Ao chegar na nossa cidade, se apresentou na casa de Zelito Calaça. Este indagou: 'como é o seu nome?'. O rapaz de 19 anos respondeu: 'o meu nome é João Bosco, mas pode me chamar de Toreite'. Sem dúvida alguma foi o melhor e o mais inteligente zagueiro que a cidade já teve. O moço tinha um físico de fazer inveja aos companheiros e com mais de um metro e oitenta de altura  era uma perfeição na defesa e uma tranquilidade para os torcedores. Coisa rara em zagueiros, ele chutava forte com os dois pés e também desarmava facilmente os adversários. Limpava a área sem dar um chutão sequer, saindo sempre com a bola dominada na maior categoria, ao estilo de grandes zagueiros.

A seleção desse ano tinha grandes jogadores:  Murilo, Djalma, Arigó, Dandão, Zé Neguinho, Ibis, Galego, Chelo, Agenor, Tiba e outros que eu não  me lembro. A seleção  ficou em quarto lugar, perdendo a semi-final em casa para Areia Branca. O detalhe é que a partir daí Toreite foi contratado por grandes equipes do futebol do Rio Grande do Norte e da Paraíba, como o Baraúnas, o Potiguar de Mossoró e o Treze de Campina Grande, que ficou conhecido como JB. Após a eliminação da nossa seleção, a imagem que ficou registrada nesse cronista foi o choro de Toreite e Zelito, ambos abraçados. JB conseguiu fazer grandes amizades em Pedro Avelino, principalmente, com a família Rufino. Faleceu precocemente. Grande emoção.

                                         Marcos Calaça, jornalista. (UFRN)             



Escrito por MARCOS CALAÇA às 00h22
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FERREIRO
VELHA PROFISSÃO
Numa época em que pouca coisa pronta ou manufaturada era encontrada na cidade, a presença dos ferreiros era indispensável. Em Pedro Avelino conheci alguns representantes desta difícil  profissão.
Para citar apenas os mais conhecidos e populares eu me lembro de Luís Martins, conhecido popularmente como Luís Bambão, e Manoel de Barros. Eles eram  peritos na fabricação de chocalhos e consertos de armas de fogo e ainda faziam  peças de caminhões e consertavam portões de ferro e se dedicavam também à fabricação de instrumentos agrícolas como pás, enxadas, facas, foices, facões, alavancas, eixos de carroças e até machados.

As oficinas destes profissionais eram as mais rústicas que se podia imaginar. O forno a carvão era assoprado por um arcaico fole de couro de boi,  um  cocho  cheio de água para resfriar as peças depois de moldadas,  alguns sacos de carvão espalhados por todo lado, várias marretas e muita fuligem no teto. Uma verdadeira bagunça  que no final dava certo. Época saudosa.


Escrito por MARCOS CALAÇA às 18h29
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SÉRGIO CADÓ ELOGIA CRÔNICAS E POESIAS DO GALINHO

Amigo Marcos, quem é filho de Pedro Avelino sabe muito bem que seus poemas e crônicas retratam a realidade vivida no nosso sertão, de grandes dificuldades pelo clima da região. Mas, ao mesmo tempo, de grande alegria e felicidade para nós que vivenciamos aquela época. Abraços, Sérgio Cadó.
Sérgio Cadó | sergio-cado@hotmail.com | 



Escrito por MARCOS CALAÇA às 19h49
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POUCO LEVADO

COISAS DE MENINO

Quando menino fui levado
Dando pouco trabalho no sertão.
Cheguei a apanhar de sandália,
E de fivela com cinturão.

Levei pisa de palmatória,
Não escapei de cipó
Ao tomar banho de poço,
Apanhei de fazer dó.

Eu era frouxo na rua  
E em casa também,
Mas fazia o que queria
Feliz como ninguém.

Inventei de caçar
Com Inácio e Chiquinho de Maroca,
Apanhei de mamãe
Ao ver a espingarda de soca.

Na vida eu estudei,
Passei por muitos caminhos,
Para colher frutos
Existem muitos espinhos.

Marcos Calaça, jornalista (UFRN)



Escrito por MARCOS CALAÇA às 23h58
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REPUBLICADO

ESPAÇO DAS GRANDES FIGURAS

CÔNEGO ANTÔNIO ANTAS

Embora a vida deste grande mecenas mereça livros, quero, sintetizando, mostrar um pouco da sua vida e sua obra.

Padre Antas está para Pedro Avelino, como Albert Einstein está para a física. Não posso imaginar esta cidade sem a figura deste benfeitor. Repetindo o poeta Ibani Costa, que analisando o padre fez essa peça:

                                                       Eu sou a pedra que virou rochedo,

                                                       Eu sou o medo transformado em festa,

                                                       Eu sou a fresta que guardou o credo

                                                       Arvoredo de Deus, no céu floresta.

                                                       Manifesta-se em mim, desde bem cedo

                                                       Sacro triângulo de infinita aresta.

 

De uma família tradicional católica, logo cedo despertou a vocação sacerdotal e quando ordenou-se passou por algumas paróquias importantes como São Gonçalo e Touros. Recebeu convite para ser capelão militar no Rio deJaneiro, no entanto, na ocasião da emencipação política do município, veio ser vigário da nova paróquia.

Foi justamente na sua terra, onde pode desenvolver o seu sacerdócio: cuidando das almas, cuidando da educação do povo e preparando gerações.

Padre Antas era polivalente: conhecia o latim; o grego; a língua portuguesa; a literatura; a medicina; a música, em todas as dimensões; a mecânica e a pedagogia.

Todas as crianças conheceram no seu tempo, o mundo mágico e intelectual na Casa Paroquial. Lá aprendia-se a pedir licença para entrar e para sair, a tocar os instrumentos que mais a vocação se coadunasse, baralhos de escritores, poetas, ensaístas, músicos, teatrólogos, etc. Jogos de raciocínio, cântico, jogos de perguntas e respostas sobre a história, tênis de mesa (ping-pong), patins, bicicletas e conhecimentos gerais.

O sermão do padre Antas, na missa, não era proferido com palavras difíceis e, sim, com linguagem fácil, para que pudessem ser compreendidos seus ensinamentos e seus conselhos.

Sua obra social foi muito abrangente: cuidava da velhice, da infância e da adolescência. Abria espaço para os jovens pobres se projetarem sem cobrar nada, somente pelo seu apostolado.

A sua obra literária é voltada par a poesia. Algumas são musicadas por ele mesmo. Citarei: o Caboclo Nordestino, a Casa da Fazenda, o hino ao Bom Jesus dos Navegantes (Touros), o hino a São Paulo, sonetos, marchas, hino do município e outras músicas inéditas. Sua mais importante poesia é a 'Princesa do Sertão'. Essa jóia foi composta na madrugada do dia 23/12/48, dia da emancipação política do município, e foi oferecida ao grande pai da pobreza: Pedro Alves Bezerra.

                                PRINCESA DO SERTÃO

                                Princesa do sertão

                                Que de encanto encerras

                                Tem terras exuberantes

                                Que todas as terras.

 

                                És rica na opulência dos algodoais

                                Dos gados pelos campos enchendo os matagais.

 

                                És terra de amavios, cheia de explendor

                                Banhada ao clarão de um sol abrasador

                                Em tardes de verão, da nortada o frescor

                                Bafeja-lhe o aroma do pereiro em flor.

                               

                                És forte nos seus filhos que embora carpir

                                Ajudam construindo a glória do porvir.

                                Repousa nesse sonho,  ó bela adormecida

                                Que hás de acordar liberta, ó terra adormecida.

                                E finda nesse lema, rica, bela e forte

                                Da nobre trilogia das terras do norte.

                                  

Nos deixou ainda moço, ficando um vazio, que jamais alguém irá preencher. Padre Antas continuará no pódio e caminhará sempre no coração de cada paroquiano.

Na ocasião do seu falecimento em 18/10/1975, compus esse poema:

                                            ÓRFÃOS

                                 Estrada por que não poupaste

                                 Àquele homem que por ti corria?

                                 Estrada, aquele benfeitor

                                 Era vigário em nossa freguesia.

 

                                 Estrada, já pensaste agora,

                                 O que será de nós sem um pastor?

                                 Por que, estrada, não enlarguecesse

                                 Para livrarmos de tamanha dor?

                                 Estrada, ele corria em disparada

                                 Porque levava pena e tinha dó

                                 De um cristão de vida delicada.

 

                                 Mas tu agiste de forma pior,

                                 Nem ficaste, ao menos comovida

                                 Em levar o lema de um Brasil melhor.

 

                                 Estrada, mas tu tens razão,

                                 De não ficares triste e dolorida, 

                               Porque, estrada, todos nós sabemos

                               Que tu és estúpida e também sem vida.

                                        João Bosco da Silva, professor e poeta



Escrito por MARCOS CALAÇA às 12h11
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MATANDO A SAUDADE DO NOSSO COUNTRY CLUB

A sociedade Country Club fazia três festas tradicionais. A primeira era o carnaval de abertura: Zé Pereira no sábado, três matinês, três Vesperais e três bailes noturnos. Chegavam caravanas de todas as cidades próximas a Pedro Avelino. A segunda era animação dos dias da vaquejada, com o baile solene do dia 29 de junho, dia também da festa do padroeiro, São Paulo. A terceira era o Réveillon, na passagem do ano novo.    

Geralmente contratavam um conjunto para tocar músicas lentas de ritmos populares variados. Quando chegava a meia noite,  Raimundo Cavalcanti parava as músicas e fazia uma preleção: " Os ponteiros se cruzam, neste instante ouviremos o hino nacional executado pela orquestra do 16º RI", e em seguida era carnaval até as 6:00 da manhã, mesmo que as gerações mais novas não tenham podido ver essas maravilhas, o frevo mais caracteristico do carnaval era "Vassourinhas". 

                                           João Bosco da Silva, professor e poeta        



Escrito por MARCOS CALAÇA às 09h43
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